Corriam os idos anos '90 quando, de vez em quando, a minha mãe precisava de
ir à vidinha dela fazer coisas de mãe e me deixava a cargo de alguém. Avós, tios,
vizinhos ou amigos, mas sempre gente de confiança. Quando me 'entregava'
temporariamente havia sempre um discurso de bom comportamento que devia ser
cumprido à risca e que eu sabia que se isso não acontecesse havia borrasca na
certa quando chegasse a casa. Sabia também, sem nunca me precisar de ser explicado
o porquê, que deveria ter tanto respeito a essas pessoas como aos meus próprios
pais. Havia um consentimento tácito para, em caso de eu fazer uma asneira,
poder levar um belo calduço sem que a pessoa encarregue disso pensasse duas vezes no
que a minha mãe ia pensar. E ai de mim se fizesse queixa à mamã, o mais certo era
levar outro e ainda ficar de castigo por a ter envergonhado com
qualquer asneira.
Hoje em dia os pais não dão calduços aos filhos nem mesmo se eles estiverem
em pleno restaurante a berrar a plenos pulmões que querem atirar-se para o chão a servir de tapete a quem passa ou se estiverem a
correr contra as pessoas dentro de lojas com corredores mínimos*. E ai de quem
ousar dar um olhar gélido às ditas criancinhas. Ataque ao desconhecido
insensível, já! Pobre filhinho indefeso... Hoje em dia os papás não educam nem deixam educar. Hoje em dia
um professor não pode puxar as orelhas a um aluno sob pena de ter um processo
disciplinar às costas. Há vinte anos atrás o pai que fosse chamado à escola
por causa de um filho mal comportado dava carta-branca aos professores, agora fazem
ameaças de queixas a superiores. Hoje em dia as crianças batem nos educadores e
os pais nem se dignam em pedir desculpa em nome dos filhos.
Ter um filho, actualmente, é criar pequenos seres déspotas que fazem o que
querem dos pais por estes se sentirem amedrontados com o que uma repreensão
pública pode afectar a auto-estima da pequena felore de estufa. O mais
inacreditável disto tudo é que estes pais de hoje em dia são, maioritariamente,
adultos da minha geração que viveram e foram educados no mesmo sistema que eu.
Sendo, pois, a questão a de tentar perceber se sou eu que sou muito forte
mentalmente e passei ao lado de um estado totalmente recalcado e traumatizado
por ter sido educada com regras firmes ou simplesmente passou-se directamente
para a geração 'nenucos', onde os progenitores acham que ser pais é igual às brincadeiras que se faziam no recreio da escola: mudar as
fraldas, dar de comer, dar tudo o que o menino pede e nunca dizer não.
*reflexão à posteriori de um fim-de-semana que envolveu muitos momentos de
apazigamento interior na sequência de vários encontros imediatos com
criancinhas e respectivos pais
(a) digo eu com os nervos, que nunca pari.
adorei, simplesmente! continua*
ResponderEliminarPois é! Mas também há outra questão - e eu já a senti na pele! Quantos pais ou mães não gostariam / tentaram dar o belo do puxão de orelhas ou palmada a tempo devido, e foram de imediato recriminados por quem estava à sua volta (outros pais, avós, vizinhos, desconhecidos...) - e com isso perderem autoridade perante os pequenos terroristas?
ResponderEliminarTens toda a razão - estamos a criar uma sociedade egoísta, que se julga só de direitos e exige dos outros só deveres.
Mas enfim... um facto é que tambem cada vez mais pessoas se insurgem contra este modo de pensar dos Tugas, e aos pouquinhos voltam a utilizar modos de educação "do antigamente". Pode ser que se consiga, num futuro qualquer, o equilíbrio desejado!
É impressionante a capacidade que tens de verbalizar de uma forma tão directa aquilo que eu penso!
ResponderEliminarE é que isto acontece em 95% dos assuntos... será pq ambas somos nortenhas de Viana?!?!?
:D
Tanto paizinho que precisava de ...levar calduço! Só para começar. :)
ResponderEliminarA longo prazo, estas faltas de ação trazem mais parasitas para a sociedade, mais seres que não mexem uma palha mas vivem à nossa custa! Mas cuidado, direitos não lhes faltam!
Concordo em pleno contigo. Bastava a minha mãe abrir os olhos, e eu já não sabia onde havia de me enfiar. Ou portava-me bem, ou portava-me bem. Hoje em dia, os pais não querem saber. Não sei se não querem "traumatizar" os filhos, como já ouvi algumas pessoas dizer (que parvoíce! cheguei a levar algumas palmadas e ainda aqui estou), ou se não querem simplesmente saber. Há umas semanas fui almoçar fora e há uma miúda no restaurante que andava de um lado para o outro, a incomodar toda a gente. Os empregados, coitados, tinham de segurar bem os tabuleiros com a comida que a miúda ia contra eles. A mãe, que estava na conversa com uma amiga, não queria saber. Às tantas, vem meter conversa comigo e com o meu marido. Ele, que tem mais paciência com crianças que eu, também já estava farto porque não conseguíamos comer em paz. Pediu à miúda para ir sentar-se na sua mesa (atrás de nós). A mãe ouviu e não disse nada. Para finalizar, tínhamos os nossos telemóveis em cima da nossa mesa quando a miúda começa a mexer nas nossas coisas. "Não aprendeste que não se mexe nas coisas que não te pertecem?" perguntei eu. A mãe, mais uma vez, ouvi e nada disse. Não repreendeu, não disse para ficar quieta, não pediu desculpas pelo comportamento da filha.
ResponderEliminarE eu só penso: se é para deixarem os miúdos ao deus dará, se não é para incutir alguma educação e moldá-los da melhor forma possível, se não querem saber deles, porque é que esta gente tem filhos?
Não podia estar mais de acordo. As tuas palavras completam as minhas, do meu post de hoje. Acabei o fim de semana a pensar que, das duas uma, ou tenho uma mão demasiado leve e não tenho paciência para aturar miúdos (o que me leva a pensar que é melhor continuar sem parir) ou os miúdos de hoje nascem formatados para a má educação e tudo o que de negativo existe à face da terra. Eu, gostava de ter uma criança tão bem educada que bastaria levantar o sobrolho para ela perceber que tinha pisado o risco e era melhor recuar. Definitivamente, não tenho pachorra. E quando uma amiga me disse que eu não poderia repreender um filho em público (se é mesmo verdade, é um erro crasso) sob pena de ser possível apresentarem queixa, eu quase que lhe berrei: "O quê? Mas, endoidecemos? Agora o meu filho vira-se e chama-me um nome qualquer (que não o meu) a plenos pulmões e eu, não faço nada?" UI, levava logo uma palmada. Depois, venham dizer: "Ai, coitadinho do menino." Levei poucas, mas sabia que se me portasse mal, os meus pais conversariam comigo. Atenção que não sou apologista de espancamentos (vulgo maus tratos), mas de que uma palmada na hora certa e com a devida explicação cai sempre bem, isso cai.
ResponderEliminarsem duvida, e um problema real. por um lado pq os pais passam cada vez menos tempo em casa com os filhos, depois e toda a geracao vitima em q ja nem se podem dar uns calducos na altura devida. falta educacao. sao putos rebeldes sem respeito a ng, e os poucos pais q tentam educar vem-se a bracos com a realidade escolar que muitas vezes so (des)educa :S
ResponderEliminarEspero nunca deixar os meus filhos abusar... não aguento má educação dos filhos dos outros, não quero que os outros aturem dos meus.
ResponderEliminarTudo muito bem dito! É impressionante a falta de educação que anda por ai nos pais e consequentemente nos filhos. A minha mãe é professora e todos os dias tem de levar com putos mal educados, que não aprendem nada, que são preguiçosos. Do estilo: porque tenho de escrever "resposta completa" e "o meu pai trabalha numa fábrica e não precisa de saber inglês/matemática/história/português para nada". Ou de mães que estão no café a meio da manhã a contar às amigas (tudo malta desocupada), que se a professora da filha pensa que retira o telemóvel à sua menina está muito mal enganada porque ela "vai e compra-lhe outro".
ResponderEliminarNo outro dia num café, um miúdo de 1 ano e meio 2, estava entretido a abrir e a fechar a porta (estava frio na rua e a porta estava fechada). A rica mãe estava com o marido e outro casal a tomar chá e andava com a chávena na mão atrás do menino para ele poder andar à vontade. Então nós fartos de estar a levar com o frio de cada vez que ele abria a porta (estávamos na mesa mais perto da entrada), olhámos para o miúdo e o meu marido diz num tom suave: Estás a deixar entrar frio, não podes abrir a porta! E a mãe diz: anda filho que estás a incomodar os senhores...
E outra! Tinha uma colega cujo filho de 2 anos e meio ainda dormia na cama de grades no quarto de casal, ela ainda viajava no banco de trás do carro porque o miúdo "não deixava" a mãe andar à frente, de cada vez que iam ao super a mãe "tinha" de lhe comprar uma bola de futebol e sempre que o ia buscar ao infantário "tinha" de ter rebuçados na mala, porque ele pedia logo. E TUDO porque se sentia culpada de o deixar tantas horas no infantário!
Haja paciência!
Desculpa o testamento!
Bjs
Bom dia,
ResponderEliminarEste é um problema muito atual.
Tenho 2 filhas, um com 14 e outra com 10. São o oposto uma da outra.
Da mais velha nunca recebi uma queixa dos professores devido a mau comportamento. É uma menina dedicada, respeitadora, com valores e nunca, mas nunca perturba a aula.Está apenas na fase parva da adolescência.
A de 10 anos, não tem nada a ver. E na semana passada fui à reunião com a diretora de turma. No final da reunião, tentei saber o comportamento da menina. A professora olha para a folha das notas e olha para mim e apenas diz " a I. não se cala". Eu só lhe disse, que sabia bem como ela era. E que tinha pena de os professores não poderem ser mas duros com os miúdos. Pois uns puxõezinhos de orelhas não faziam mal a ninguém.
Pois os pais/mães que ouviram este meu lamento, ficaram deveras transtornados, e só lhes faltava baterem-me.
Bjs
Fernanda
Concordo com o post e com os comentários. Só espero ter o discernimento necessário para conseguir ver a fronteira entre demonstração de personalidade e birra (má educação). Se o meu filho alguma vez protagonizar certas situações como as que assisto às vezes, terei imensa vergonha. Acredito que a tarefa não seja nada fácil, contudo.
ResponderEliminarO que gostava de salientar é mesmo o que referes no fim: o curioso disto tudo é que os pais das crianças de hoje são da nossa geração, a geração que foi tão bem educada. Isto dá que pensar. Será que, afinal, foram assim tão bem educados? Ou será apenas uma questão dos tempos de hoje, da sociedade?
A nossa geração, a que foi educada a não ter tudo o que queria, a respeitar as pessoas e os seus sentimentos, a conviver de forma saudável, é a mesma que não passa sem o último smartphone do mercado, que faz tudo o que for preciso para passar à frente dos outros (no trabalho, na fila do trânsito, etc), que não aguenta um ano de casamento e que tem uma série de outras atitudes. É a geração que quer sempre mais (a nível material, a nível sentimental, a nível profissional, e por aí fora). Será que fomos mesmo bem educados e o contexto da sociedade anula o que aprendemos, ou nos nossos tempos de criança apenas reagíamos perante medo de ouvir, medo de levar, medo de ficar de castigo? É que ser educado é interiorizar as coisas, é "vou portar-me bem porque gosto de me portar bem" e não "vou-me portar bem senão o meu pai abre os olhos e castiga-me". Enfim, só alguns devaneios...