A pessoa não morreu para a blogosfera novamente, mas a pessoa agora tem uma vida um pouco caótica, é o que é. Mas vamos lá a mais um episódio da maternidade para que os anónimos maldosos possam destilar um pouco mais de veneno (eu jurava que eles tinham debandado neste tempo todo mas parece que não!).
Para quem não percebe do assunto, convém fazer o intróito dizendo que durante os nove meses de gravidez é essencial que se façam três ecografias, uma por trimestre, e que cada uma delas se vai debruçar sobre questões distintas no desenvolvimento do bebé. A primeira faz-se ali entre a 11ª e a 13ª semana e pretende despistar grandes anomalias genéticas, nomeadamente várias trissomias (algumas das quais inviabilizam a progressão da gravidez).
Pois que à 12ª semana vai aqui o casal maravilha feliz e contente fazer a eco, ver o crianço já com as devidas formas e sai do consultório com o mundo nas costas e atarantado com as notícias. Em resumo, e sem entrar em pormenores médicos, num jogo de probabilidades que normalmente anda na zona de 1 para 20000 possibilidades na pesquisa de anomalias, nós saímos daquele consultório com uma estatística de 1 em 7 (SETE) para que aquela criança que carregava tivesse problemas genéticos graves.
E agora, perguntamos? ...Temos que esperar para atingir o tempo suficiente para fazer a amniocentese, disseram-nos. Mais uma vez, para quem não sabe, esse exame para ser fidedigno deve ser feito a partir das 16 semanas, o que significava que teríamos que aguardar, na melhor das hipóteses, um mês até poder ter as respostas que procurávamos. Um mês a deitar e a acordar vendo a barriga crescer e sem saber qual seria o futuro. Impensável para nós.
Naquele fim de dia e durante toda a noite eu pesquisei tudo o que havia para pesquisar. Li coisas em português, inglês, francês e latim e cheguei a uma conclusão: biópsia das vilosidades coriónicas. Uma coisa ainda tão pouco divulgada que aqui na parvónia onde moro não havia um único sítio ou médico que fizesse este exame. É em tudo semelhante à amniocentese mas pode ser feito muito mais cedo e acarreta um risco um pouco superior (não muito, se o médico for experiente). Consegui finalmente encontrar quem o fizesse no Porto, no Hospital dos Lusíadas. A 21 de Julho de 2017, dia de aniversário da minha mãe em que passamos o dia todo a tentar fingir que estávamos animados, ao final da tarde, recebi um dos emails mais importantes da minha vida e onde aquela bomba dos 1/7 desapareceu e foram afastadas as anomalias genéticas primárias. Mas pairava ainda a possibilidade de outro tipo de anomalias (ainda que menos graves), nomeadamente possíveis cardiopatias pelo que, a conselho da médica que nos seguia, decidimos aproveitar o material genético recolhido e mandamos fazer um CGH-Array.
O CGG-Array está para a medicina como um Ferrari topo de gama está para o automobilismo. São ambos muito caros mas dão respostas que nenhum outro é capaz. O Array permite o estudo detalhado do genoma humano e a pesquisa muito precoce de inúmeras doenças presentes no ADN. A 24 de Agosto veio a notícia que o estudo do genoma não tinha revelado alterações relevantes e que aquele bebé seria um bebé perfeitamente saudável. A 24 de Agosto de 2017 voltamos a respirar um pouquinho melhor.
Este meu relato de algo tão pessoal serve apenas para compilar uma série de palavras-chave que certamente vão ajudar alguém que, como eu, vai andar horas à procura de respostas e consolo por causa de uma notícia menos boa. Para esses que aqui cheguem por causa disso, não desesperem. É horrível passar por isso mas pode não ser nada. De veradde. Pode ser só um susto que vos vai dar alguns cabelos brancos a mais mas que não é o atestado definitivo de um final menos feliz.
Uma nota final para dizer que o SNS é óptimo a tratar doenças físicas mas péssimo no acompanhamento psicológico dos pacientes. Todas estas respostas precoces foram alcançadas à minha conta e risco e sem que nunca me tenha sido oferecida ajuda psicológica para lidar com a situação. À minha (normal) ansiedade a única resposta é que era preciso calma e paciência para aguardar.